segunda-feira, outubro 30, 2006

Marítimo

O solitário repousa à pedra

o seu corpo de âncora e algas.

Sentindo os dedos das ondas, diz

baixo: te peço: me afaga.

Diz baixo, e é como se dissessem

a pele, os ossos, a alma.


Já perto vêm uns errantes,

envoltos em capas, em cotas.

O homem levanta um dos braços,

e todo, inteiro, invoca:

meu Deus, salvai-me, cobri-me,

deixai-me liberto da horda.


A tropa, ó talho e gume!,

começa o escárnio, a não-dança.

Toma de facas, de maças,

golpeia o que a fúria alcança.

O homem se estende, sorvido,

tritão destituído da lança.


A ira, agora contida,

contente de seu linguajar,

sorri vendo o homem, seu peso,

que o impede de se levantar.

Também a dele leveza,

levada ao jugo do mar.